terça-feira, 8 de setembro de 2009

O NOME DELE ERA KAMUZU BANDA

Com o objetivo de apresentar o país em todos os aspectos: sociais, culturais, geográficos, históricos, humanos, exóticos e comportamentais, registro por aqui um pequeno texto sobre este importante personagem da política do Malawi.



Ele está em toda parte do país, no aeroporto, na estrada, no hospital, na escola, em tudo se encontra o seu nome. As homenagens ainda se estendem por meio de um memorial - localizado na capital, em Lilongue - no qual há uma enorme estátua em que está apoiado numa bengala com a mão esquerda, e a direita estendendo uma tocha aos céus. Sem falar no mausoléu, onde está enterrado, cercado por um bonito jardim, na lápide está escrito em inglês o começo do Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma”.
Apesar de ter falecido há mais de dez anos, ninguém está tão vivo no Malawi quanto ele, Kamuzu Banda, o primeiro presidente do país, morto em 1997, com 101 anos, numa clínica na África do Sul, devido a problemas de saúde.
Por intermédio da figura política dele, sob a sua liderança que Malawi conquistou a independência em 1964.
Quem se aventurar a pesquisar a respeito dessa figura descobrirá tanto atitudes boas quanto ruins, tanto críticas quanto elogios, como acontece, aliás, a todos os grandes personagens da história, as contradições, as atitudes nebulosas, muitas vezes, apenas aumentam o fascínio de uma biografia, como no caso de Kamauzu Banda


(Foto: Neo Nassif) Segundo o monitor do mausoléu, Malawi foi fundado em cima de quatro pilares, que são: Lealdade, Unidade, Obediência e Diciplina. Em cada um dos quatros pilares que sustentam o mausoléu há uma dessas frases.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

AS CRIANÇAS DO MALAWI



Eles caminham em enorme quantidade na maioria das aldeias do país. A maior parte é formada por órfãos, não têm o que comer, não tem o que vestir, andam maltrapilhos, descalços, cheios de terra. Tudo indica que um número elevado, infelizmente, é soropositivo. Dormem no chão, em “dormitórios” de palha, para amenizarem o frio, já que a temperatura, normalmente, cai à noite, ficam amontoados para que juntos consigam algum tipo de aquecimento, pois não têm cobertor, às vezes alguns panos rasgados, empoeirados, aparecem como manta. Para eles não existe café da manhã, almoço ou janta, a refeição é um mistério na vida deles, algo fadado a acontecer de maneira aleatória, casual. Dia das Crianças? Natal? Presente de aniversário? São acontecimentos inexistentes na vida deles. Assim vivem as crianças do Malawi, com as mãos estendidas, pedindo ajuda.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

RETRATOS MALAUIANOS

Se ocorresse uma competição mundial para eleger qual a nação que tem o sorriso mais bonito do planeta, não há dúvidas de que Malawi seria um forte candidato ao título. É simplesmente incrível como, apesar da miséria enraizada na maior parte da sua terra vermelha, no meio de tanto sofrimento, o malauiano ainda é capaz de manter o bom humor, de sorrir por meio de simples gestos de felicidade. Essa “autogozação” talvez seja uma válvula de escape para sair de uma rotina de sofrimento, pensei em alguns momentos, enquanto tirava as fotos, enquanto observava uma a uma, crianças, mulheres, jovens e idosos, todas as pessoas que passavam por mim, enquanto mergulhava naquele batalhão de olhares dançantes, no entanto, a verdade é que essa capacidade de transmitir alegria vivendo no caos, ao mesmo tempo que é uma interrogação sem resposta exata, também foi uma lição de vida para este jornalista que vos escreve, e é esta aprendizagem que eu quero transmitir para os leitores do blog.
Neste ensaio fotográfico (selecionei algumas fotos para esta postagem, ainda tem muito mais para mostrar), realizado durante os dez dias que passei lá, a minha intenção não foi somente registrar a expressão de alegria, mas também captar a serenidade e a integração com o meio ambiente, com a rotina do dia-a-dia dessa população capaz de demonstrar uma energia pela vida dificilmente encontrada em outros lugares.


Dentro de uma casinha da aldeia, segundo o morador, essa parte é o quarto dele, a parede serve como guarda-roupa e a esteira, totalmente gasta, no chão é a cama.


Hora do almoço, criança comendo o sima, a única comida encontrada com facilidade nas aldeias, é um prato feito apenas com milho e mandioca.


Rapazes trabalhando na olaria, o povo malauiano é bastante trabalhador.


O milho é a principal fonte de alimento nas aldeias.


Crianças contentes ao receberem bolas de presente, assim como no Brasil, o futebol é o esporte preferido deles e uma das poucas diversões da garotada nas aldeias.


Rapaz transporta enorme quantidade de carvão na garupa. No Malawi a bicicleta é um precioso transporte de carga, em alguns locais ela é utilizada como táxi.


Garoto faz sinal de positivo, imitando o fotógrafo já que no país esse gesto não é conhecido.


Como a Aids está dizimando o continente africano, é enorme a quantidade de órfãos nas aldeias. O irmão mais velho fica responsável em cuidar do menor,


por isso, é muito frequente ver essas cenas de zelo e cuidado entre os irmãos.


Este senhor, riso brilhante, vende tomate na beira da estrada.


Esse outro também é vendedor de tomate, na frente da barraca dele faz um sinal mostrando as duas palmas da mão, pelo que eu entendi esse é o sinal de positivo do malauiano.


E aqui, algum amigo do “Projeto Malawi”, tirou essa foto na qual me divertia com algumas crianças, “ensinando uns golpes de Kung Fu”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

NA BEIRA DAS ESTRADAS É COMUM O COMÉRCIO DE ESPETOS DE RATO



Ele está em pé, no acostamento, em algum trecho da Highway Kamuzu Banda, acenando para os veículos que passam tinindo por uma das principais estradas do país, o objetivo é chamar a atenção do motorista para vender o seu produto: espeto de rato, constituído na verdade em dois pedaços de bambus, amarrados, unidos, por barbantes que assim seguram o alimento no ar.
Seu nome é Charlo, tem 22 anos, está com uma camisa bem suja de terra, uma calça mais comprida do que as prórpias pernas. Ele diz que já faz um bom tempo que ganha a vida dessa maneira. No dia-a-dia, principalmente, entre julho e agosto, período de alta temporada, época que Malawi recebe um elevado número de turistas, sempre acontece de algum gringo pagar só pra ver e tirar foto dele comendo um rato.
Diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil, pelo menos em termos de habitat, não se trata de um rato de esgoto e sim do mato, das savanas, aliás, conforme as palavras de Charlo, ele perde bastante tempo para caçá-los.
É claro que não só para o hábito, mas também para o imaginário americano e europeu, tal alimentação é muito fora da normalidade, talvez até mesmo em Malawi, já que nas ruas do centro, nas proximidades dos grandes comércios da capital, em nenhum momento, este jornalista e blogueiro do Projeto, registrou tal tipo de mercadoria.
Por isso, acredito que não seja algo de gosto ou de venda popular na região, existe, no entanto, como mais uma fonte de sobrevivência, acredito que devido à situação de miséria, tocante aos problemas de origem social, foi isso que pude perceber nas minhas andanças por lá, tanto que não aconselho a nenhum turista sair andando pelas ruas de Lilongue com um espeto desses, pode soar de modo zombeteiro à população.
Muito risonho e expressivo, Charlo, apesar da forte aparência de jovem carente, quando percebe que foi acionado apenas para conversar dá dois passos para trás, faz um gesto de até logo, e volta a acenar os “espetos” de rato para outros veículos, afinal, esse é o trabalho dele, e tempo é dinheiro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

COM A ESCOLA EM ATIVIDADE ENTRA EM CENA A DEDICAÇÃO DOS PROFESSORES



Bainet M. Kayra, um homem com expressão rude, mas de olhar sereno e gestos tranquilos, está na casa dos 43 anos, formado em Pedagogia, ele ocupa o cargo de diretor do novo centro escolar “Teresinha Jesus de Oliveira”. Fora essa função acumula as tarefas de professor de Inglês, Matemática e de Ciência e Tecnologia.
Antes desse emprego, Kayara chamado pelos amigos, em chichewa, de Chalima, era funcionário de limpeza no “Aeroporto Internacional Kamazu Banda”, aqui de Malawi.
Agora, nesse novo trabalho, o dia começa cedo, antes do sol dar as boas vindas, acorda por volta das 5h, se arruma e toma café, saindo de casa às 6h, aqui, inicia uma caminhada de aproximadamente uma hora em estrada de terra até achegar na escola. No país há poucas linhas de ônibus, sem falar que para malauiano é uma essencial economia no orçamento do mês, não só ir ao trabalho, mas também se locomoverem na cidade a pé ou de bicicleta.
Então, nesse cenário de precariedade de transporte ele percorre cerca de 7km até a sua cadeira de diretor. Por volta das 15:30, horário que o sol ainda se encontra forte, queimando o solo, ele, com o dever cumprido, deixa a escola percorrendo todo o percurso novamente a pé, e detalhe: durante todo esse período não faz nenhuma refeição, só quando chega em casa.



Já a professora Jollyn Q’umilonde, 28 anos, cuja grande virtude, segundo ela, é a paciência que tem em lidar com crianças também é responsável em ensinar inglês aos alunos, uma das matérias mais importantes, em termos práticos, pois essa é a língua oficial do país junto com o chichewa, e quem a domina, aliás, assim como acontece no mundo todo e não poderia ser diferente em Malawi, tem a chance de arrumar um emprego melhor, como funcionário de hotel, ou em comércios da capital, conta que a escola deu novos ares para as aldeias locais.
Todos os professores serão remunerados pelo governo malauiano, mas fora o salário, a parte financeira, fica evidente que eles precisam de muita dedicação e a força de vontade para driblarem os obstáculos comuns num país com pouca infra-estrutura.